quinta-feira, 6 de março de 2014

Fim do século XXI para o socialismo bolivariano?

Marcel van Hattem*

Colaborou: Fabio Ostermann

Inflação galopante (oficialmente, 56% em 2013), criminalidade nas alturas (25 mil homicídios ao ano) e desabastecimento por todo o lado. O proclamado “socialismo do século XXI” de Hugo Chávez, quinze anos depois de implantado na Venezuela, sofre sua mais dura contestação sob a presidência de seu sucessor, Nicolás Maduro. Milhões têm, recentemente, lotado as ruas de Caracas. Jornalistas internacionais são descredenciados pelo governo na tentativa vã de bloquear a divulgação dos protestos. Segundo a ONG Foro Penal Venezuelano, mais de 400 pessoas já foram presas sem acusação formal pelas forças de segurança. Para acrescentar insulto à injúria, dentre as nove mortes contabilizadas até o fechamento desta edição está a de uma miss Venezuela, a jovem Genesis Carmona, de 22 anos, atingida por uma bala na cabeça.

“As pessoas foram às ruas para buscar uma saída para essa situação de crise grave em todos os sentidos”, disse Gabriel Salas, 28, coordenador executivo da rede nacional de Estudantes Pela Liberdade na Venezuela. “As manifestações foram motivadas devido à escassez material que se vive e à violência. A visão preponderante hoje é de que, ou o governo muda sua postura perante a sociedade, ou a sociedade muda o governo”. E por que não pela via eleitoral? “As fraudes são muitas e os tribunais eleitorais são dominados pelos chavistas”, denuncia Salas. “Além disso, não existe tampouco a possibilidade de a oposição derrubar o governo pela via armada, pois além de aparelhar ideologicamente o exército, os bolivarianos têm um grupo paramilitar, a Guarda Nacional Bolivariana”.

Quem apoia

O “bolivarianismo”, no entanto, é visto por muitos como um modelo a ser seguido. Os discursos “anti-imperialistas” que partem da Venezuela têm admiradores ao redor do mundo - e, no Brasil, a atual presidente Dilma e o ex-presidente Lula fazem questão de explicitar o apreço que têm pelos líderes venezuelanos. O próprio PT emitiu nota em apoio a Maduro no auge desta última crise. “É, de fato, um modelo para a esquerda, dentro de um contexto estratégico geral. Mas a minha análise é que se esgotaram as possibilidades de gestão política e administrativa deste modelo, principalmente por causa da questão econômica”, opina o cientista político Paulo Moura coordenador do curso de Ciências Sociais da ULBRA.

Segundo Moura, o Brasil pode tomar o mesmo rumo: “a Venezuela e Argentina são as pontas-de-lança neste processo, e acredito que suas situações não tenham mais volta. Já o Brasil está hoje ainda em uma fase intermediária, mas se o governo Dilma não abrir mão de suas convicções - do que não dá sinais - ou não for substituído nas urnas, seguiremos o mesmo caminho”. O professor acredita, porém, que o modelo está se esgotando: “assim como o desgaste da esquerda levou a uma onda de governos neoliberais nos anos 80 e 90 e a esquerda ascendeu ao poder, tudo indica que um ciclo está se fechando”. Se esta previsão se confirmar, o século XXI terminará cedo para o socialismo bolivariano.

*Cientista político, jornalista e consultor para relações internacionais

Fonte: http://www.revistavotodigital.com.br/web/pub/voto/ (pág. 50).

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