sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O sonhador empedernido


Três fatores básicos ajudaram Jagland:
argumentação, senso de oportunidade e sorte
Sobre o prêmio Nobel da Paz, depois de seis horas em Oslo na sala onde foi feito o anúncio, e de ter entrevistado o próprio presidente do Comitê que entrega o Prêmio, tirei várias conclusões de todo o processo e, principalmente, do líder dele. Algumas dessas conclusões seguem em pontos abaixo.

O presidente do Comitê, Thorbjørn Jagland, que em 1990 escreveu o livro Meu Sonho Europeu, é um sonhador, de fato. Ele tem a União Europeia como sua ideia fixa. Característico de sonhadores empedernidos, ele não dá bola para a reação da população do seu país ao prêmio, já que 80% da população norueguesa ainda recentemente disse em pesquisa ser contra a entrada da Noruega na União Europeia - coisa que já rechaçaram em referendo no passado.

Político habilidoso, Jagland já foi premiê, chanceler e Presidente do Parlamento da Noruega. Sua experiência política lhe permitiu alcançar o objetivo, pessoal sobretudo, a meu ver, de dar o prêmio à UE devido a três fatores básicos: 1. sua própria prática política e argumentativa; 2. saber aproveitar a oportunidade; 3. ter muita sorte (lembrando que todas essas coisas são importantíssimas para uma liderança): 

1. Prática política e argumentativa: Jagland soube dar um argumento para agraciar a UE que se torna quase irrefutável. A União Europeia foi, sim, responsável pela pacificação europeia em grande parte desde o pós-Guerra. Essa pacificação deu-se principalmente em virtude da integração de seus mercados, diga-se, não em virtude da união política que ela se tornou, nem em virtude da introdução do euro. Essas "verdades inconvenientes", logicamente, não interessavam à argumentação dele. A própria declaração oficial fala na crise econômica apenas de raspão. Eu mesmo perguntei para Jagland, durante a coletiva, sobre o fato de a crise estar em pleno curso, e ele disse que o que importava foram as "instituições e a integração econômica que elas proporcionaram", além de dizer que a crise "iniciou nos EUA". Ou seja, ele baseou todo o seu discurso em torno daquilo que não há muito como contestar: a UE auxiliou no processo de paz europeu pós-guerra; o que veio depois, "melhor não discutir".

2. Saber aproveitar a oportunidade: realmente a integração da Croácia à UE no ano que vem é um marco. Assim como as negociações para a entrada de Sérvia e Montenegro. Como a Croácia será membro da UE já em 2013, de fato a última região que faltava ter representantes na UE agora está nela também (deixemos Bielorrússia, Ucrânia, Turquia e as exceções auto-declaradas de lado). Por fim, a região dos Bálcãs europeia foi onde mais houve conflitos nas últimas décadas, certamente quando falamos em conflitos internacionais.

3. Sorte: o único membro do Comitê que é um conhecido eurocético, Agot Valle, político de extrema esquerda, ficou doente e foi substituído no último momento pelo bispo de Oslo, Gunnar Staalsett. Este certamente votou a favor da UE como merecedora do Nobel da Paz pois a decisão sempre é unânime. Para desgosto de Valle, certamente.

Sala do Instituto Nobel repleta de jornalistas:
Jagland atendeu a todos direitinho, como manda o figurino
Finalmente, o ego de Jagland é imenso. A nomeação de Obama em 2009 foi o que marcou a primeira participação de Jagland como Presidente do Comitê do Prêmio Nobel. Desde então, vê-se que ele não teme a crítica e a controvérsia, nem que seja para defender uma ideia fixa de lavra própria. Ele ficou sozinho dando entrevistas a todos os jornalistas que quisessem ouvi-lo após o anúncio. Esperei quase duas horas, mas ele mesmo assim foi super simpático, atencioso e convicto da decisão do Comitê. Ou, interpreto eu: da sua própria escolha.

Hoje à noite, depois de ter logrado o que mais queria, Jagland poderá outra vez sonhar tranquilo seu sonho europeu.

Créditos das fotos: Marcel van Hattem

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