terça-feira, 14 de agosto de 2012

“No mundo árabe há um novo ator: o cidadão”

(Publicado na Revista Voto, agosto de 2012)

Na Síria, ainda é Primavera. Não importa que a natureza defina a duração de uma estação como pouco mais de 90 dias - a Primavera Árabe no país do Oriente Médio se arrasta por mais de um ano. Com um agravante: os horrores da repressão aos opositores do ditador Bashar Assad parecem não ter fim. 

A guerra civil  na Síria continua, em grande parte, devido à falta de entendimento internacional. Uma campanha da Amnesty International, que distribuiu recentemente outdoors por todas as estações de trem aqui na Holanda, deixou clara a situação. Com a foto de Assad em uma das metades do outdoor, as seguintes frases:


“Há momentos em que você se sente só e incompreendido. Em que você se questiona sobre tudo: se você deve continuar com as torturas dentro de hospitais; se o assassinato daquelas crianças afinal realmente foi uma boa ideia; se o mundo realmente acredita na sua conversa de que os manifestantes são terroristas.”

E, na outra metade, com a foto do presidente russo Vladimir Putin, complementam os seguintes dizeres:

“Nessas horas difíceis é muito bom saber que
Você tem um amigo” 

A campanha pede para que Putin detenha a tirania de Assad, seu “amigo” - afinal, juntamente com a China, os diplomatas russos têm bloqueado qualquer resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) que busque intervir no país.

O consultor israelense Arik Segal, mestre em Diplomacia pela Universidade de Tel-Aviv, especialista em conflitos internacionais, falou à revista Voto sobre o caso Sírio. E advertiu: “o conflito causou uma grande instabilidade, com potencial de se transformar em algo ainda muito pior”. Segal, que tem especializações na Espanha, na Inglaterra, nos EUA e na Alemanha, respondeu à seguinte entrevista por e-mail do Canadá, onde está no momento.

A crise na Síria já dura mais de um ano, apesar de iniciada na mesma época das outras revoluções da chamada Primavera Árabe. O Egito e outros países da região, no entanto, não tiveram uma situação tão sangrenta por tão longo tempo. Por que na Síria é diferente?

AS:Existem duas diferenças principais. Em primeiro lugar, a resposta do regime aos opositores é implacável, além de a maioria dos militares permanecerem leais ao presidente Bashar Assad. Além disso, ao contrário da Líbia, não há significativo envolvimento internacional. Como os rebeldes não estão equipados nem são bem treinados como os militares, o conflito não tem fim.

Fala-se frequentemente em uma possível intervenção internacional no conflito. A revista The Economist chegou a sugerir abertamente que a comunidade internacional arme o opositor Exército de Libertação Sírio, apesar de reconhecer os perigos de tal decisão. O senhor concorda com essa solução?

Acredito que o Exército de Libertação Sírio já esteja sendo armado por vários países - e isso é feito de forma discreta. Existem muitos prós e contras em armar os rebeldes. Se o interesse é em uma mudança de regime, eu considero essa a melhor saída nas circunstâncias atuais. No entanto, deve-se saber a quem se está dando as armas e do que essas pessoas podem ser capazes quando Assad for finalmente removido do poder.

A China e a Rússia vêm obstruindo uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. Que interesses estão por trás da diplomacia desses países?

A principal preocupação da Rússia é que a Síria, sem Assad, torne-se uma terra sem lei e que isso se torne um problema novo e ainda maior no Oriente Médio. Há também a questão de partilha de poder no Oriente Médio e a vontade russa de manter sua influência na região, além de outros interesses econômicos - esses últimos, a meu ver, menos importantes. Quanto à China, a história demonstra uma tendência de não interferir em outros países. A China foi invadida e conquistada inúmeras vezes no passado. Logo, um dos seus principais pilares na política externa é a oposição a intervenções estrangeiras. Se a Rússia mudar de ideia e não se opuser a uma intervenção, creio que a China acabe fazendo o mesmo, apesar de sua história, para não ser vista como a única divergente.

Como o conflito sírio tem sido percebido no restante do Oriente Médio?

O conflito causou uma grande instabilidade, com potencial de se transformar em algo ainda muito pior, principalmente em razão da posição geopolítica crucial da Síria na região. O país é uma parte da aliança Irã-Hezbollah e fica em uma posição estratégica muito importante. Tanto Ahmadinejad (presidente do Irã) como Nasrallah (líder do Hezbollah) sabem que, se perderem o controle da Síria, o poder deles no Oriente Médio vai diminuir significativamente. A conclusão lógica é que eles farão tudo o que puderem para impedir que isso aconteça - inclusive tentar arrastar Israel para dentro do conflito.

Qual é o futuro da Primavera Árabe? E o da Síria?

Não posso prever o que vai acontecer. Ninguém realmente sabe e não há como descobrir. A premissa básica que devemos levar em consideração é que no mundo árabe há um novo ator: o cidadão. A partir de agora, os tomadores de decisão devem ser mais sintonizados com a vontade das pessoas. Para tentarmos entender a Primavera Árabe, devemos enxergá-la através dos olhos das nações árabes e das vontades, necessidades de seus cidadãos.

A democracia na região é possível ou, como os mais céticos têm dito, estamos destinados a ver ditadores antigos sendo substituídos por novos ditadores?

Novamente, ninguém pode prever isso. É muito provável que seja um processo longo e difícil de ajustamento. A instabilidade e os conflitos serão apenas parte dele.

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