domingo, 19 de agosto de 2012

A vida tem desses diálogos


Hoje, no trem de volta de Bruxelas à Antuérpia, do lado do Renan Artur Pretto e de frente para mim, 
sentou um afegão. Calor, muito calor aqui: 37 graus fez hoje, maior desde 1947 na Bélgica. 

O afegão, jovem, suava horrores. Puxei conversa. O clima, lógico.

"Está quente", disse ele em inglês horrível.
"De onde você é?"
"Afeganistão".
"Mas lá é quente também".
"Ontem fez 44 graus". 
"Você veio de lá direto?".
"Não, estou aqui há dois anos, mas vi ontem na TV". 
Há dois anos? Então deve falar holandês, pensei. Continuei em holandês e, de fato, a conversa fluiu um pouco melhor.
"E porque veio de lá?""
"Guerra, né? Agora estou trabalhando numa fazenda perto da praia, na costa da Bélgica."
"E sua família? Não sente falta?"
"Estão todos mortos".
Engoli em seco. "Sinto muito". 
"Tudo bem".
"E como você foi parar na Bélgica?"
"Problemas com o Talibã."
"Como assim?"
"Eles disseram que se eu não lutasse ao lado deles, treinando no exército talibã, me matariam", disse, de físico de fato bem apropriado. "Os EUA descobriram."
"E?""
"Me ofereceram asilo".
E foi parar na Bélgica. 

A vida tem desses diálogos.

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