sexta-feira, 20 de julho de 2012

Tecnologia, know-how e inovação: ativos do moderno “Velho” Mundo


Navio controlado com um iPad:
tecnologia avançada, não tem nem
regulação ainda

“Temos muito em comum: na área econômica, a história de relacionamento entre o Brasil e Holanda já conta quase quatro séculos, com a ida de Maurício de Nassau ao Nordeste na época colonial”, declarou Marten van den Berg, diretor substituto de Relações Internacionais do Ministério dos Assuntos Econômicos, Agricultura e Inovação do governo Holandês. A fala ocorreu durante a visita de uma missão empresarial brasileira do setor de construção naval à Holanda, na última semana de junho. “Temos, além disso, mais em comum. A começar pela nossa paixão pelo futebol. Orgulhamo-nos de termos revelado ao mundo, no PSV Eindhoven, os craques Ronaldo e Romário. E, se invejamos os cinco títulos mundiais do Brasil, ao menos chegamos em segundo lugar mais vezes do que vocês”, brincou Van der Berg, arrancando risos da plateia.

Se no futebol a rivalidade entre os países resulta frequentemente em dramáticas partidas – basta lembrarmos as Copas de 1974, 1994, 1998 e 2010 –, na área econômica a busca é por mais cooperação e interação. “A indústria de construção naval holandesa é tem alta tecnologia, produtividade e, orgulhosamente, pratica a sustentabilidade. Somos parceiros do Brasil, uma economia emergente de muita importância, para negócios neste e em outros setores”, concluiu Van der Berg, falando do palco do pavilhão flutuante do Netherlands Water Expo, localizado dentro do Porto de Roterdã, o maior do
mundo.

Convidados pela governo holandês e pela Holland Marine House Brasil (HMHB), entidade setorial baseada no Rio de Janeiro que representa a indústria naval da Holanda, vieram à Europa cinco diretores de estaleiros brasileiros e o vice-presidente executivo do Sindicato da Construção Naval (SINAVAL), Franco Papini. O grupo passou cinco dias visitando empresas na Holanda, cruzada de ponta a ponta.

A importância do setor expressa-se em números. “O Brasil passou de 1,9 mil empregos diretos na área em 2000 para mais de 60 mil hoje, graças a uma demanda concentrada da Petrobras”, explica Papini. A indústria naval, focada nos anos 1970 principalmente em exportação, entrou em crise nos anos 1980 e 1990. Voltou a crescer agora, focando em obras, sobretudo da Petrobras: até 2020, a estatal quer produzir 6 milhões de barris de petróleo por dia. “Isso implica construir 33 novas sondas de perfuração, 50 plataformas de produção, 500 navios de apoio e de 100 a 120 navios tanqueiros”, enumera Papini. O número de empregos diretos também subirá novamente no período, atingindo os 100 mil trabalhadores segundo estimativas do SINAVAL. “É o momento do Brasil; a demanda será perene pelos próximos 30, 40 anos”, calcula.

Joystick da Rolls Royce utiliza componentes de última
geração produzidos pela holandesa Kwant Controls
Para poder atender a essa impressionante demanda, a indústria naval precisa modernizar-se, e busca tecnologia de padrão internacional onde puder, motivo por que não só a Holanda, mas também Japão e Finlândia já foram visitados pelo setor. O governo brasileiro, porém, não quer mercado livre nesta área: impõe uma política de conteúdo local que estabelece um mínimo de 70% de “conteúdo local” nas novasobras. “Eu acho que isso não pode desencorajar empresas estrangeiras de trabalharem em conjunto com o Brasil. Ao contrário, deve estimulá-las inclusive a instalar-se no nosso país, transferir tecnologia e gerar emprego e renda no Brasil”, defende Papini.

Do lado holandês, a vontade de fechar negócio com o Brasil também é evidente. O departamento de relações internacionais do Ministério dos Assuntos Econômicos do país elegeu o Brasil como um de seus cinco países-foco. “A indústria holandesa do setor de construção naval tem muito a oferecer ao Brasil: desde pequenos componentes eletrônicos de altíssima tecnologia até projetos de completos de navios”, explica Johanna Bart Ritsma, presidente da HMHB e, desde o ano passado, trabalhando no Rio de Janeiro. Há muitas oportunidades de negócio com o Brasil, e a Holanda não vai ficar para trás. Holandeses são empreendedores e essa parceria tem grande potencial”, diz Ritsma.

Em tempos de crise financeira na Europa, mercados emergentes como o do Brasil são muito atraentes. A tecnologia, o know-how e a grande capacidade de inovação do moderno “Velho” Mundo são um dos maiores ativos de países como a Holanda no mercado internacional.

Participação na revista Voto como colaborador internacional
permite abordar temas atuais escrevendo diretamente da Europa
Certamente, porém, nem tudo são rosas. Ou tulipas. Investir no Brasil não é fácil. Altos juros, o novo protecionismo, a burocracia e, sobretudo, o emaranhado e intraduzível sistema tributário brasileiro, ainda são grandes obstáculos a serem superados. Nesse caso, o know-how para as reformas de que o Brasil precisa não poderá vir de fora, mas depende exclusivamente da vontade política de Congresso e Executivo. Isso, só Brasília pode resolver. Enquanto as mudanças de atitude na política brasileira não acontecem, resta à diplomacia comercial de ambos os lados achar meios para driblar as dificuldades.

O Ministério do Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio brasileiro (MDIC), por exemplo, reconheceu alguns desses problemas durante o 30º Encontro Econômico Brasil-Alemanha, realizado no início do mês em Frankfurt, Alemanha. “Estamos trabalhando para reduzir a burocracia e preocupados com a desaceleração da indústria nacional”, revelou Heloísa Menezes, secretária de Desenvolvimento da Produção do MDIC. “Contudo, queremos um caminho de mão dupla com a Alemanha, tanto adquirindo tecnologia e conhecimento, como incrementar o investimento de empresas
brasileiras na Alemanha”.

Voltando à Holanda, diferentemente das disputas acirradas no futebol, o objetivo na área econômica é que tanto Brasil como o país europeu saiam vitoriosos. E que suas empresas fechem bons negócios.

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