segunda-feira, 30 de julho de 2012

Melhor ser funcionária pública

Li o texto abaixo no jornal holandês De Telegraaf. Não pude deixar de traduzi-lo e compartilhá-lo com meus leitores. Sei da importância do serviço público em várias áreas para um país. Mas o texto abaixo, escrito por um jornalista estrangeiro no Brasil, demonstra bem o que vejo aqui da Holanda (ainda mais agora que estou tendo uma experiência de trabalho dentro de uma instituição governamental holandesa): o governo brasileiro paga salários e dá benefícios fora da realidade para o funcionalismo público. Certamente se comparados com a iniciativa privada. 

É uma pena que economistas como a citada na matéria existam aos montes no país: pessoas com excelente potencial para serem empreendedoras, artistas, sei lá...  qualquer outra coisa que poderia fazer delas pessoas mais realizadas pessoal e profissionalmente, optam pela segurança, estabilidade e bom salário do serviço público. Abrem mão muitas vezes - e infelizmente - de aproveitarem os seus talentos naquilo que realmente sabem ou gostariam de fazer.

É lógico que há pessoas vocacionadas ao serviço público no Brasil e que se dedicam a ele. Exemplos há no mundo todo. O ponto aqui é ressaltar que muita gente vocacionada e capacitada para outras atividades reage a incentivos como os citados no texto abaixo. E isso torna a questão muito polêmica.

---

Melhor ser funcionária pública



KIERAN KAAL*, São Paulo


Uma economista brasileira muito inteligente contou-me em uma casa de samba sobre os novos planos para a sua carreira. “Serei fiscal da Receita. Cinco mil euros de salário inicial, um horário de trabalho legal e me aposentar cedo. O que eu quero mais?”

Um sorriso debochado brilhou no seu rosto. Quando eu a conheci, essa jovem talentosa de 20 e poucos anos ainda tinha ambições muito diferentes. Ela seria uma escritora brilhante ou uma empresária - não uma funcionária pública enferrujada. Mas a tentação é grande. Nada menos que três em cada cinco jovens brasileiros sonham com um emprego no governo, de preferência como funcionário público federal.

Explicar essa popularidade é fácil. Com a nova Lei da Informação (similar ao WOB holandês) todos os salários dos funcionários públicos estão disponíveis para quem quiser ver. Os dados demonstram que o governo paga mais do que o dobro do que muitas empresas pelo desempenho de funções semelhantes.

Além disso, funcionários públicos têm emprego vitalício. Eles ainda recebem aposentadoria equivalente a 100% do último salário recebido - uma generosidade mesmo para padrões europeus.

A divisão do mercado de trabalho é absoluta. Na fortaleza burocrática que é Brasília, a renda per capita é duas vezes maior do que a de São Paulo, o motor econômico do país. Será que os moradores de Nova York tolerariam se os de Washington fossem duas vezes mais ricos?

No entanto, os burocratas de Brasília não estão satisfeitos. Estão há semanas em greve por melhores salários. Mas a presidente Dilma Rousseff não se curva.
A popular Dilma acha que o momento é de apertar o cinto, especialmente considerando o magro crescimento econômico de 2% esperado para este ano. Ela se frustra com o fato de que a medieval burocracia brasileira abocanha até 70% do seu orçamento. Por esse motivo, o país é lanterna mundial quando o assunto é a eficiência na alocação dos recursos públicos, diz o Banco Mundial. Dinheiro que é justamente muito necessário para melhorar estradas, aeroportos, escolas e saneamento.

É melhor você trabalhar para o Estado brasileiro pois, do contrário o Estado brasileiro trabalhará contra você; portanto, minha amiga economista preferiu escolher o certo ao duvidoso. Uma multidão porém ainda a separa de um emprego vitalício na Receita Federal: há duzentos candidatos por vaga. Ela está estudando horrores para um concurso extremamente difícil. Eu acho um desperdício pelo seu talento.

*Kraal é correspondente em São Paulo do jornal holandês De Telegraaf. Publicado na edição de hoje, segunda-feira, 30 de julho de 2012. Tradução do holandês: @marcelvanhattem

Nenhum comentário:

Postar um comentário