terça-feira, 24 de julho de 2012

Falando com as Paredes


Marcel van Hattem*

A UFRGS decidiu em 2007 adotar cotas no vestibular. O problema do acesso ao nível superior não está, porém, ali, mas no vexaminoso ensino público brasileiro de base, retardatário nos índices mundiais. Não é novidade: desde muito antes das cotas e até hoje, a educação não deu sinal de melhoras. Além disso, como fazem cotas raciais, diferenciar uma pessoa pela cor da pele é discriminação em qualquer dicionário.

Muitos defensores das cotas na UFRGS, porém, sempre foram fãs de métodos pouco ortodoxos, quase nunca civilizados. Estudantes contrários, quando tinham a chance de falar, eram obstruídos. Argumentar era falar com as paredes. Até um corredor polonês foi feito por militantes do DCE no dia da votação do Conselho Universitário. Os "manifestantes" gritavam palavras de ordem nos ouvidos dos conselheiros que tentavam passar, fossem alunos, professores ou servidores. Com direito a pressão política de Senador e Ministro presentes, as cotas passaram.

A decisão definia que ocorreria uma avaliação em cinco anos. Agora, portanto. O que se nota no debate em 2012, porém, é o mesmo não-debate de 2007: urros, corredores poloneses, bandeiras comunistas e até Che Guevara e Zumbi dos Palmares invocados na defesa da manutenção e também da ampliação das cotas. Ignoremos por ora a contradição com o argumento anterior de que seriam uma mera medida paliativa, temporária, limitada. O que choca mais é a impossibilidade de qualquer debate racional em tal circunstância.

Quando chegava à reunião do CONSUN para debater o tema, na manhã de sexta-feira, Renan Artur Pretto postou no Facebook: "comecei bem a manhã: tomando chutes de manifestantes antidemocráticos que fazem corredor polonês na porta de acesso à reitoria". Renan é um estudante não ligado ao DCE; já os "manifestantes" não só o são como postaram orgulhosamente fotos da ação. Por que essa reação truculenta se Renan queria, como representante de estudantes de oposição ao DCE, apenas expressar seu pensamento com palavras? 

Intolerância, infelizmente, pode matar. E não leva a lugar nenhum em tempos de democracia e liberdade de expressão - mas se acompanhada de violência deveria levar ao menos à delegacia. Em um ambiente tumultuado, em que chutes e pontapés passam por "manifestação de estudantes", como esperar que se chegue a uma decisão democrática e racional? Que ao menos nos ouçam as paredes.


*Mestrando em Ciência Política (Leiden, Holanda) e ex-membro do Conselho Universitário (CONSUN) da UFRGS, onde se formou em Relações Internacionais

3 comentários:

  1. Olá, Marcel. Li seu artigo no jornal ZH de hoje. Parabéns pelo texto. Também frequentei universidade pública, estive próxima de movimentos estudantis (diretório acadêmico de curso) e sei do que você fala. O DCE em minha época era uma alternância entre integrantes do PT e, de outro lado, membros do PSTU, PC do B, e afins. As medidas mais antidemocráticas eram tomadas em nome do "bem". Não havia assembleia, o que acontecia era um ritual que somente aqueles que já conheciam a linguagem e os métodos que ali se impunham tinham condições de se manifestar. Esses encontros eram longos e tinham em vista "matar no cansaço" os oponentes e somente iniciar a votação quando a "panela" de sempre estivesse em maioria para aprovar o que queriam. O clima em momentos de reivindicação ou greve eram de violência e truculência, com apoio de políticos de destaque dos partidos de esquerda. Conto estas histórias para várias pessoas e elas não acreditam. Gostei de ler teu texto e o tive como um desabafo meu também. Continue pensando. Abraços, Vera

    ResponderExcluir
  2. Olá, Vera. Obrigado pelo seu relato. Você contou fielmente o que acontece até hoje na UFRGS, infelizmente. Chegamos a vencer as eleições para o DCE contra esses grupos da política estudantil militante de extrema esquerda, mas a batalha é quase inglória. Não desisto, é necessário desabafar e trazer a público - mas que pouca gente acredite que isso exista, é verdade. E até compreensível: como imaginar que estudantes universitários comportem-se de maneira infantil e anacrônica, quando não delinquente? Abraço, Marcel

    ResponderExcluir
  3. Interessante, fiz.economia na UFSC entre 2000 e 2005, e havia um grupo de gaúchos egressos da UFRGS que "habitavam" no DCE, pessoas intragáveis ligadas ao PT, que desdenhavam muito dos alunos locais, catarinenses, que como sabem não votam no PT. Na época como ainda não havia tanta força nos tentáculos do PT nas universidades federais ainda conseguimos barrar os fulanos. Mas hoje sei que os mesmos (!!!) ainda vivem a custa do governo, no Dieese, na Cut, e com bolsas universitárias, e isso já faz 10 anos! O tal grupo gaúcho-petista hoje tomou conta da ufsc. Na época literalmente a porrada desceu em uma ocasião. Depois até marginais de uma invasão já eram habituais deste grupelho. Quando foram denunciados, a resposta era "racismo" e inclusão. O resultado foi todo ano ocupação e destruição de reitoria, assaltos pelos excluídos, e uma queda considerável na qualidade da universidade, que atende com os já parcos recursos as demandas dos petralhinhas em formação.

    ResponderExcluir