quinta-feira, 12 de abril de 2012

Novas gerações, velhas preocupações

Você também não é contra Putin? 
Alternativa A: Sim, eu também não sou contra Putin. 
Alternativa B: Não, eu também não sou contra Putin.

A piada é velha: trata-se de uma antiga anedota russa da época comunista onde não havia espaço para a oposição. A diferença, porém, é que antes o alvo era o Partido único e o método de propagação era de boca em boca; hoje, o alvo é uma pessoa e a propagação é pela internet. A comunicação instantânea pela rede e a capacidade que essas mensagens têm de mobilizar, virtualmente, milhões de pessoas, é notória. Será a internet capaz de, finalmente, fazer da Rússia uma democracia?

"Há um excesso de otimismo quanto a essa suposta capacidade da internet. Muitas revoluções já ocorreram sem Facebook, Twitter ou e-mail em diferentes épocas: a onda de revoluções que varreram a Europa em 1848 ou mesmo a queda do Muro de Berlim, em 1989, nada tiveram a ver com Twitter ou Facebook, que sequer existiam", avalia o historiador e cientista político Hans Oversloot, professor da Unviersidade de Leiden, na Holanda.  De fato, apesar dos protestos populares recentes contra Putin, convocados pela internet, sua eleição no mês passado demonstrou que ele continua forte. Ele será presidente de novo depois de cinco anos em que exerceu o poder nos bastidores como primeiro-ministro de Dmitri Medvedev.

A Rússia é uma potência. Membro do BRICS, possui o PIB de quase US$1,8 trilhão e reservas colossais de petróleo e gás natural. Politicamente, porém, o país tem regredido nos índices internacionais de liberdades civis e políticas, possui altos índices  de corrupção e de interferência estatal na atividade privada e não é considerado uma democracia pela Freedom House. Voltando à História, Boris Yeltsin, primeiro presidente depois do comunismo, com problemas de saúde e cansado da tumultuada relação política que mantinha com o parlamento, entregou no último dia de 1999 a presidência ao seu então primeiro Ministro, o ex-agente da KGB, então ilustre desconhecido, Vladimir Putin. Três meses depois, Putin elegia-se presidente.

"Desde a tragédia de Beslan em 2004, na Ossétia do Norte, quando quase 200 crianças morreram após serem sequestradas por terroristas, Putin aproveitou o forte apoio popular e endureceu: decidiu que o Kremlin passaria a indicar os governadores das 89 províncias russas. No Senado, cada província tem direito a duas cadeiras: o ocupante de uma é designado pelo parlamento local e o da outra pelo governador - ou seja, pela mesma pessoa que colocada no posto pelo próprio Putin, sem eleições. E a Corte Constitucional não viu problema nisso", explica Oversloot, que entre 1997 e 2008 trabalhou no departamento de Estudos sobre a Rússia de Leiden.

As peculiaridades do desenho institucional russo não param por aí: Vladimir Putin não é filiado a nenhum partido. Seu partido de apoio no parlamento, Rússia Unida, o qual também preside, indicou-o como candidato em convenção. Filiação ele não quer: prefere ser visto como um estadista que está acima das "pequenezas" do processo político. Putin habilmente moldou o Parlamento: o voto é agora exclusivamente em lista fechada e única para todo o país e aboliu o voto distrital, que antes era responsável pelo preenchimento de metade das 450 cadeiras da Duma. Concorrer a presidente é para pouquíssimos: ou a indicação deve surgir de um dos apenas quatro partidos que já estão no Parlamento, ou o candidato deve colher dois milhões de assinaturas em poucas semanas. "O processo político russo é definido inteiramente por quem está no poder, algo histórico", comenta o professor.

A juventude russa, escandalizada com as fraudes nos processos eleitorais escancaradas em 2011, decidiu agir: em 24 de dezembro foi às ruas protestar por mais transparência e contra Putin. "Eu estive junto", conta Anastasia Nikitinskaya, 21 anos, 174 amigos no Facebook, 250 no VKontakte, o Orkut russo. Ela soube dos protestos pela internet. "A TV não divulga nada; os jornais, muito pouco. O que sabemos é por meio de blogs opositores ou pelas redes sociais. Nós jovens não fomos oprimidos como nossos pais ou avós sob o regime comunista e temos mais disposição em ir para as ruas protestar", avalia. Natural de São Petersburgo, Anastasia graduou-se em ciência política. Nas eleições de março, voluntariou-se como fiscal da urna da embaixada em Haia pois está na Holanda cursando mestrado em relações internacionais, em Leiden. "Foi a segunda vez que votei, mas senti-me no dever de fazer algo para melhorar meu país", conta ela.

Dezenas de milhares de russos fizeram o mesmo, mas as evidências de fraude surgiram mesmo assim. Apesar disso, a vitória de Putin foi marcante, com quase 64% dos votos. Na Chechênia, dos 612.194 eleitores, 611.578 votaram em Putin: mais de 99% dos votos. "Democracia, principalmente no interior, é palavrão. Essas pessoas se sentem iludidas pois no início dos anos 1990 foi vendida a imagem de que a Rússia teria, além de eleições, outras instituições fortes, como o Ocidente. A maioria prefere agora acreditar em um líder como Putin pois sentem que ele passa uma sensação de segurança", avalia Anastasia.

Com fraude ou sem fraude, rindo da piada ou não, Putin voltou à presidência do país e com considerável apoio. Agora, porém, tem uma oposição mais expressiva de uma nova geração, que levou-o a prometer reformas. Se esse é o início de seu fim? "Não dá para prever. Se nenhum fato novo cruzar seu caminho nos próximos seis anos, Putin pode até mesmo reeleger-se em 2018", conclui o professor Oversloot.

*Publicado na Revista Voto, ano 8, número 87, de abril de 2012.

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