sábado, 28 de janeiro de 2012

Visita horrorosa a Auschwitz: o que eu vi


O que os judeus sofreram durante a Segunda Guerra Mundial é indescritível. Em palavras, é impossível contar a forma como esse povo foi oprimido: centenas, milhares de livros foram escritos sobre o holocausto; mesmo assim, é apenas visitando um campo de concentração que se pode ter ao menos uma ideia mais próxima sobre o que ocorreu durante um dos genocídios mais terríveis da história da humanidade.

Aproveitando minhas férias na Universidade, decidimos, um amigo e eu, fazer de carro a viagem a Auschwitz, o mais conhecido, infame e terrível campo de concentração utilizado durante a Segunda Guerra Mundial para aprisionar judeus, homossexuais, ciganos e criminosos comuns. Além desse, na Polônia, houve dezenas de outros em toda a Europa. Aqui, tudo circula muito ainda em torno da história recente de disputas territoriais, políticas e econômicas no continente. A União Europeia é resultado da busca por um entendimento entre esses povos e, desde sua criação, a hipótese de haver guerras aqui não é mais, felizmente, aventada.

A história da perseguição do povo judeu é por muitos questionada. Alguns chegam ao ridículo de negar a existência do holocausto. Uma visita à Auschwitz certamente acaba com qualquer dúvida: lá, entra-se nas instalações precárias destinadas aos sono dos prisioneiros, amontoados em quatro andares de camas improvisadas sobre tábuas de madeiras - alguns dormiam no chão frio, entre ratos que passavam à noite e a calefação não era ligada nem no inverno de -20ºC. Nós pegamos neve e -2ºC, muito frio já, mesmo bem agasalhados; em Auschwitz, visita-se os banheiros coletivos, em que sem a menor privacidade tinham de fazer suas necessidades um ao lado e a frente do outro sobre pedras frias e, depois, limpá-las eles mesmos; vê-se os objetos pessoais, óculos, malas, brinquedos, roupas, que eram retirados da posse dos judeus assim que chegavam ao campo, vindos em vagões de trem insalubres que viajavam por até sete dias - muitos, principalmente idosos e mulheres, chegavam já sem vida ao destino. Os que restavam, se eram na chegada classificados como inaptos ao trabalho, eram imediatamente encaminhados ao extermínio; ingressa-se nas salas em que os prisioneiros eram sumariamente julgados e aos calabouços, onde depois eram aprisionados. Um deles, que chocou-me em particular, contém três cubículos de um metro quadrado cada em que judeus eram obrigados a ficar durante toda a noite até 12 dias seguidos de pé, e em até cinco pessoas no mesmo espaço, para no dia seguinte serem novamente obrigados a trabalhar. Por que eram colocados ali? Até mesmo por terem roubado - ou contrabandeado - um pedaço de pão dentro do campo. Muitos morriam sufocados dentro daquele local.

As infames câmaras de gás, essas as mais terríveis. Há poucos metros da Administração do campo, da casa do General nazista alemão, encontrava-se uma delas. Entrar e ver os orifícios pelos quais o gás era jogado e, depois, os fornos em que os corpos eram cremados, é de uma tristeza e indignação indizível. Em Birkenau, as câmaras de gás mais modernas construídas pelos nazistas encontram-se em ruínas, destruídas pelos próprios a fim de tentar esconder as atrocidades que cometeram. Após a morte na câmara, os cabelos eram cortados e utilizados na indústria alemã para fabricação de móveis e de estofados. Sete toneladas de cabelo ainda estão estocados. Duas, estão à mostra em Auschwitz. Eu vi. Não tirei foto, e também nem é possível: felizmente é proibido fazê-lo naquela sala em respeito às vítimas. Mas a imagem fica na cabeça para sempre.

Sei que essa história não é aprazível de se ler para nenhum leitor deste blog. Aliás, para ninguém. Sei, também, que por mais que eu tente descrever o que eu vi, nada vai equivaler nem em parte à minha experiência pessoal de ter estado em Auschwitz. Muito mais eu vi que não é possível contar em um texto curto, mas que levarei para minha vida. O que vi, foi horrível: certamente uma das experiências menos desejáveis que um cidadão de bem queira ter. Mas conhecê-la é necessário até para contradizer aqueles que negam o ocorrido.

A história da Segunda Guerra Mundial não é muito estudada no Brasil e, também, não significou o mesmo tanto que significa até hoje para os europeus. A defesa da liberdade, da democracia, do Estado de Direito e dos direitos humanos mais básicos, porém, tem de ser universal. Auschwitz ensina isso: todo um povo oprimido, perseguido, humilhado e dizimado continua sendo prova viva de que a maldade humana não tem limites, nenhum limite, se assumem o poder maus líderes que não tenham compromisso com a liberdade, a democracia, o Estado de Direito e os direitos dumanos. Maus líderes que não tenham o menor amor e respeito ao próximo.

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