segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Por que a África é tão pobre?

"Por que a Ásia fica cada vez mais rica...
...e a África não" (NRC Next, hoje)
Por que a África continua tão pobre? Corrupção, baixos níveis de educação, exploração de todos os tipos - todas respostas-clichê. Podemos confiar nelas? Mais ainda, podemos utilizá-las, hoje ainda, como explicação para a desgraça africana?

Não.

E a razão é simples: basta comparar índices econômicos de países da África subsaariana com os do sudeste asiático para perceber-se que os argumentos tradicionais, usados ainda por muitos, já não cabem - quando muito, são acessórios.

Indonésia e Nigéria, nos anos 1980, disputavam tapa a tapa o posto de país mais corrupto do mundo. A Tailândia deixava no quesito pouco a desejar: ocupava com frequência a terceira colocação mundial. O PIB per capita das duas regiões de que esses países provém era similar nos anos 80, após décadas de retaguarda mantida pelo sudeste da Ásia. Hoje, porém, a situação inverteu-se e de uma forma extraordinária: enquanto nessa região da Ásia o PIB per capita médio por habitante já ultrapassa os 1.400 dólares, na África subsaariana o PIB não chega a 600 dólares em média - índice menor do que a média da primeira metade dos anos 70 na região!

O jornal holandês NRC Next de hoje traz uma interessante matéria comparando as duas regiões do planeta, tão semelhantes três décadas atrás em termos econômicos, hoje tão discrepantes. E vaticina: a chave da Ásia foi o investimento em agricultura.

Nada de teoria da dependência, nada de exploração dos países industrializados sobre os produtores de commodities. A dura realidade para quem defendeu uma vida inteira industrialização e substituição de importados como rota para o desenvolvimento é ter de admitir que as coisas são muito mais simples do que aparentam.

Nos anos 80, a Ásia finalmente passava a África sub-
saariana. Nos anos 2000, seu PIB per capita é o dobro.
Enquanto a Nigéria, país africano mais populoso e dono da décima reserva de petróleo do mundo, construía gigantescas fábricas de aço que nunca produziram um grama do produto, a Indonésia investia na produção agrícola de sua população, milenarmente apta - primeiro, investiu com ajuda externa; depois, com dinheiro da sua produção petrolífera, menor do que a nigeriana mas também de monta. Havia, ainda, um componente político muito forte, como também destaca a publicação: no sudoeste asiático surgiam grandes pressões sobre os governos a partir de movimentos comunistas que ameaçavam tomar o poder central, o que fez com que, em busca de apoio no campo, os governos investissem mais por ali.

De 1968 a 1985, os retornos financeiros por hectare de arroz plantado na Indonésia elevaram-se em 80%, e o país que importava o alimento nos anos 60 tornava-se autossuficiente em 1984. Vietnã, Tailândia  e Malásia seguiram os passos da Indonésia. Enquanto isso, na África, o governo nigeriano continuava investindo pesadamente o dinheiro do petróleo na industrialização enquanto, na área agrícola, repassava subsídio a apenas uma elite de 3% dos produtores, aqueles mais próximos do governo, logicamente, gerando ainda mais distorção no mercado.

Há mostras felizmente de que a situação vá mudar agora. 

"O Estado intervinha muito. Os nigerianos
são empreendedores e quero fazer da agri-
cultura um setor lucrativo".
Conforme entrevista dada ao mesmo jornal pelo ministro nigeriano da Agricultura, Adesina Akinwumi, que esteve aqui em Haia na semana passada para uma conferência internacional, está mais do que na hora de os países africanos verem a agricultura como uma oportunidade de negócio. Surpreenderam-me, muito positivamente, as palavras do ministro: "O [papel do] Estado é desenvolver infraestrutura, diminuir impostos e atrair investidores. O Estado também tem que dar meios para que seja fornecida energia aos produtores". E só. Um olhar de um político africano com clara noção de que "a agricultura precisa virar 'negócio' com o setor privado como motor do crescimento" e, mais adiante, dizendo abertamente que o Estado deve vender áreas de terra que não utiliza para que o setor privado lucre produzindo algo nelas. Bem assim.

"Os nigerianos são empreendedores, mas a agricultura só foi vista até agora como um mero programa de desenvolvimento social. O Estado intervinha muito, da produção de alimentos ao transporte, armazenamento e ao processamento", disse o Ministro. E, para finalizar esse artigo com as palavras do Ministro africano mais empreendedor de que já ouvi: "eu quero fazer da agricultura um setor lucrativo para se fazer negócios". 

Resumo da ópera: níveis educacionais, de corrupção e tantos outros fatores são, sem dúvida, muito importantes para o desenvolvimento de um país. Deixar de atentar à sua vocação econômica, porém, é mais do que importante - é determinante para seu sucesso ou fracasso econômico.

Em tempo: boas notícias para a Nigéria e, melhores ainda, para o restante da África subsaariana se a mentalidade se espalha. Quanto ao Brasil, lendo a matéria no jornal não há como não pensar no Pré-Sal: bela descoberta; nas mãos erradas, entretanto, pode ser tão ou mais absurdamente mal explorado.

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