terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Já estou saudoso, Araão Rosa

Inesquecível amigo
Era para ser um post com alguma análise política, econômica, conjuntural sobre a Europa. O jornal de manhã estava cheio de notícias e eu cheio de inspiração. Era também uma espécie de compromisso com 2012: escrever, escrever, escrever. Toda noite, chegando em casa, dedicar uns minutos a escrever algo para este blog.

Estou escrevendo, mas tristemente sobre algo muito diferente do que a princípio pensava escrever. No fim do dia, quando cheguei em casa de volta da biblioteca, recebo e-mail de um grande amigo meu informando-me da tragédia: meu amigo Araão Rosa deste mundo já se havia ido.

Conheci o Araão em 2004. Era o fim do ano, e eu acabara de ser eleito vereador em Dois Irmãos. Fui visitar os gabinetes dos deputados do meu partido para apresentar-me e acabava de chegar ao do jovem deputado Jerônimo Goergen. Com o espalhafato e o bom humor que lhe são característicos, congratulou-me pela vitória, falou de sua experiência na Juventude do partido e alcançou-me uma Constituição do Estado autografada na hora por ele. E, ato contínuo, apresentou-me a um guri, baixinho, humilde e sorridente, quase aparentando timidez: "Marcel, esse é o Araãozinho! Foi o Vereador mais jovem do Estado, na eleição passada! Também se elegeu com 18 anos!", disse-me o deputado. Um "oi, prazer, sou Araão" dito entre os dentes, o tradicional traquejo com o corpo de um lado para outro, tudo bem característico. Coisas do simples e querido Araão.

À época não criamos muita intimidade, mas a oportunidade de criarmos uma bela amizade surgiu muito longe do Rio Grande do Sul, na outra ponta do Brasil. Fui a Manaus com minha mãe e um dos irmãos, e decidi ligar para o Araão, que morava lá. Ele se foi do RS tentar montar um negócio próprio: um bar com xis (cheeseburguer) à moda gaúcha na capital Amazonense, onde já morava a irmã. Deixou seu cargo no gabinete do deputado, apostou em uma nova iniciativa - só por isso, já senti um respeito enorme por um espírito empreendedor e aventureiro. 

A ideia não deu certo, uma pena. Mas ele compreendeu logo os motivos: a cultura manauara não estava preparada para o xis gaúcho - e ele, muito menos, conseguira adaptar-se àquela cultura estranha totalmente diversa em termos de eficiência e competência sulina e com parca infra-estrutura logística para quem quisesse empreender. Lembro que quando o encontramos, o negócio já era para estar andando - a chopeira vinda do sul do país, porém, não chegava nunca, e o número de adiamentos da inauguração do seu bar era grande demais. Recebeu-nos, porém, muito bem, e com o carro da irmã - e também na sua companhia - fomos ver o Bumba Meu Boi e rimos muito juntos, além de dar uma passeada pela cidade ao som de um autêntico sotaque do interior gaúcho, tão típico do Araão.

Ele decidiu voltar. E, obviamente, pela sua competência na política e atenção inigualável com que recebia os "achegados", foi imediatamente reincorporado ao gabinete jovem do deputado Jerônimo. Independentemente de serem eleitores ou não do deputado, todos sempre foram bem recebidos pelo Araão, que levava às secretarias e aos órgãos do governo os amigos com agenda em Porto Alegre.

Conheço bem a vida de assessor parlamentar, também fui um. O Araão era exemplar: não tinha hora. Acabado o expediente - que em gabinete, apesar da má fama que a população concede aos políticos, não encerra em horário comercial, mas muitas vezes vai muito além -, ele iniciava um novo expediente. Se o regular ele já fazia com dedicação, o noturno, de dar atenção a quem vinha de longe, do interior, para conhecer um pouco a capital, era com ele mesmo: adorava uma festa, rendia-se sempre a uma boa cervejinha com os amigos. E era um brincalhão. Fazia o forasteiro sentir-se mais em casa do que no interior.

No mesmo ano do seu retorno de Manaus a Porto Alegre, 2009, eu também retornava do meu curso em Georgetown. Era ainda presidente da Juventude Progressista Gaúcha e as eleições se aproximavam. Desta vez, ele queria ser presidente também. Dizia, com razão que ouvia muito pelo interior que minha ausência havia prejudicado o projeto de uma reeleição, se é que eu tinha um. Concordei e conversamos mais - eu mesmo não estava seguro de que queria uma reeleição. Sempre trabalhei para que pudesse criar novas lideranças a suceder-me por onde passei, nunca consegui criar apego a algum cargo representativo. E, felizmente, a estratégia de abrir espaço a outros dava certo.

As condições para uma sucessão do tipo, porém, não estavam mais postas. Faltavam poucas semanas para as eleições e a Juventude, carente de recursos ao extremo, via em seus principais potenciais candidatos à sucessão pouca inclinação a concorrer (vice presidentes da gestão que eu presidia incluídos). Logo chegamos juntos à conclusão, Araão e eu, que o ideal era unirmos força - e seria eu o candidato a presidente, já que ele, por fim, também havia estado distante durante seu período de autoexílio no Norte. Sua ideia era preparar-se para ser presidente, quem sabe, no futuro - ou, como ele mesmo dizia, ao menos contribuir ativamente em um novo mandato nosso. Ele tornou-se o coordenador da campanha, ao lado de outra excepcional liderança do PP jovem gaúcho, Guilherme Pasin, de Bento Gonçalves.

Foram dias de muita atividade, pouco sono e bastante campanha. Muitas alegrias, muitas histórias boas para contar e também as inevitáveis discussões. É nessas horas que se fazem verdadeiros amigos; é nessas horas que se conhece verdadeiramente as pessoas.

"E é no ferro que o trem caminha!", dizia o animado Araão. "E é no ferro que o trem caminha!", dizia o empolgado Araão. "E é no ferro que o trem caminha!", dizia o estressado, o muito poucas vezes irritado, o querido, o inesquecível, o nervoso e parceiro Araão. De onde veio a expressão? Sinceramente, nunca perguntei... ele falava com tal autenticidade que, não se duvide, é de autoria própria. "E depois dessa campanha, vou parar de fumar!" - eu pedia para abrir a janela do carro, pelo menos, e já levávamos tudo na brincadeira. 

Quando fizemos roteiro na região dele, ficamos na casa de seus pais. Ali, mais do que em qualquer lugar, conheci o verdadeiro Araão Rosa. Filho de ex-prefeito, família mesmo assim bastante humilde, residente da pequena Trindade do Sul, na Zona da Produção, pertinho de Frederico Westphalen (noroeste gaúcho). Ali, na sua cidade, Araão tinha sido eleito vereador - e ali vi sua espetacular desenvoltura com seus concidadãos. Depois de um comprido roteiro e muitos telefonemas atendidos por mim, por ele e pela Daia, sempre fiel escudeira na campanha, Araão ainda esbanjava disposição para dançar qualquer arrasta-pé nos mais populares dos bares da principal rua do seu município. Era querido, abraçado por todos. Seus olhos brilhavam como nunca eu havia visto eles brilharem. Era a felicidade em pessoa.

As eleições para a Juventude, não vencemos, apesar de pequena diferença. Mas a campanha, fizemos com amor à nossa causa. Araão foi em todo o processo muito mais do que um coordenador para mim - foi um verdadeiro irmão, conselheiro e amigo. Tinha muita preocupação com o andamento da campanha e senso de realidade. Tinha amor pela juventude do partido, que ele havia ajudado a montar da forma como eu havia encontrado quando assumi a presidência: uma Juventude idealista, comprometida com os ideais mais nobres da política e com os valores mais dignos. Jerônimo Goergen, Pedro Feiten, ex-presidentes com grandes nomes e grandes feitos pela juventude, têm felizmente também consciência de que pouco teriam conquistado não fosse o idealismo e vitalidade de tantos Araão Rosa progressistas Estado afora. Foi deles, de jovens Araãos, que herdamos uma estrutura que gera constante renovação na política gaúcha. Renovação para o bem, renovação por uma causa maior do que os interesses pessoais ou partidários.

Estou um tanto ufanista, em um período de grande insatisfação pessoal com a política em geral e, até mesmo, com meu próprio partido. Estou no exterior, especializando-me como mestrando, e busco manter o máximo possível uma distância da política no Brasil e mesmo da minha vida partidária; algo que seja, assim, compatível com a independência que um verdadeiro acadêmico precisa buscar incessantemente. O idealismo, porém, está além disso e transpõe inclusive quaisquer barreiras partidárias. É maior do que elas. E o Araão, com sua dedicação incessante e busca sobretudo por dar o bom exemplo na política, demonstrava isso claramente. Ele era a própria personificação daquele idealismo que me levou a filiar-me a um partido, a concorrer e querer fazer o bem pelos outros. A própria personificação daquilo que se repete a cada eleição em todo o Estado, no país, no mundo inteiro. A personificação do amor pela política.

Após a eleição da JPG, mesmo derrotados, Araão foi dos
maiores incentivadores a brindarmos nossa amizade
na Casa de Cultura Mário Quintana.
E dou-me a liberdade de dizer, pelo que conheci deste meu amigo, que essa personificação foi o maior exemplo que deixou aos seus amigos em sua curta trajetória nesse mundo. Aos 28 anos de idade, deixa-nos a tristeza de sua partida, mas a certeza de que conosco ficou seu exemplo político. Seu sorriso inesgotável. Sua personalidade inconfundível. O carinho e comprometimento que sempre demonstrava por todos. E a garantia de que é possível, sim, fazer amigos na política.

Já estou saudoso de sua presença, grande amigo Araão Rosa.

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Notícia sobre o falecimento de Araão Rosa: Morre jovem assessor do Deputado Jerônimo Goergen


5 comentários:

  1. Muito bonita a homenagem que voce fez Marcel.

    Vai fazer muita falta esse amigo tão fiel que perdemos. Estou bem triste e abalado.

    Abraço.

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  2. Parabéns pela homenagem e merecida ao grande amigo e dedicado Araão!! Abraço Fábio Machado

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  3. Marcel, pelo pouco contato que tive com ele, pude perceber tudo isso: ele tambem era um politico idealista, que suava a camisa por uma causa justa, e era amigo de verdade, infelizmente coisa rara no meio. Fico muito triste com o ocorrido, o Araão foi super simpático conosco na nossa visita a Manaus! Meus profundos sentimentos ã famiia, especialmente a sua irmã, que também tivemos o prazer de conhecer. Fica a lembranca e a gratidão pelo companheirismo que ele demonstrou . Denise

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  4. Linda homenagem ao nosso querido amigo Araão!
    Sentiremos falta da sua alegria e companheirismo.

    Sua amizade sincera, sua disposição para qualquer "andança" pelo interior - como ele mesmo dizia, sua inconformidade com o que considerava errado, os conselhos dados e pedidos em meio a uma rodada de chopp...

    As histórias incrivelmente engraçadas que ele contava e recontava - sobre ele mesmo, com único objetivo de alegrar e arrancar sorrisos de quem o cercava...

    Quem conheceu o "Airão" já sabe o que é sentir saudades!

    Vai com Deus, amigo!

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  5. Hermenegildo Pulga, junto com todos os meus familiares sentimos muito a perda desse grande amigo, filho de um dos mais exemplares homens que eu já conheci,Luis da Rosa. Temos a certeza que você Araão está com Deus.

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