domingo, 6 de março de 2011

Koran Kinder - Teil 1 (parte 1)

Nota: este texto será dividido em dois posts devido ao tamanho. A segunda parte será publicada amanhã - no segundo post, mais opiniões e minhas considerações finais.

Como reagem os muçulmanos ao ver a forma de que forma crianças são doutrinadas na sua religião em um país pobre da Ásia? Na última sexta-feira, durante Seminário da Friedrich Naumann, ocorreu um intenso debate sobre o assunto.

A experiência que vou relatar aqui foi provavelmente a mais interessante que vivenciei em todos os Seminários que já participei. Os vinte e quatro integrantes da nossa classe, oriundos de países africanos, asiáticos, do leste europeu e latinos, assistiram aos 90 minutos do documentário Koran Kinder (Crianças – ou Filhos – do Corão) à noite.

O filme, que levanta questionamentos de Shaheen Dill-Riaz, jovem que fugiu de Bangladesh durante sua adolescência, apresenta as Madrassas de Bangladesh como elas são exatamente: lugares insalubres aos quais as crianças mais pobres são enviadas pelos pais com o intuito de decorarem o alcorão da prímeira à última sura. Crianças que vão às Madrassas têm como futuro apenas tornar-se Hazizes, ou seja, professores do alcorão nessas mesmas “escolas” para as futuras gerações.

Seus pais não têm condições de lhes proporcionar sequer acesso a escolas públicas e creem que, se um de seus filhos for para uma Madrassa decorar o alcorão, toda a família vai para o céu, gloriosamente. O componente econômico se alia ao religioso de uma maneira tão perversa que condena o futuro de crianças inocentes e lhes impede de terem qualquer chance de sucesso no mercado de trabalho quando adultos por não terem recebido uma educação minimamente suficiente.

Na película, mostra-se também que o governo já conseguiu implantar algumas reformas nas Madrassas e algumas ensinam também matemática e outras áreas do saber. Mas são minoria. E, mesmo assim, jovens que saem de escolas públicas ou particulares menosprezam seus conterrâneos que foram enviados a madrassas; e vice-versa. É um filme muito triste, muito bem feito, e muito real.

Quando as luzes da nossa sala foram acesas ao final do filme, o impacto sobre cada assistente foi indisfarçável: o clima, pesadíssimo, dava um aspecto lúgubre a todo o ambiente. O primeiro a se inscrever e usar a palavra foi o egípcio Ahmed Mohammed Mohammed Ibrahim. Sua fala saía de uma garganta engasgada: “tive uma péssima impressão assitindo ao filme. Sempre tive uma má impressão desse tipo de educação religiosa, mas nunca tão ruim”. Ahmed costuma falar mais quando se pronuncia. Repetiu mais ou menos as mesmas frases em outras palavras e, desta vez, desligou seu microfone.

A reação irada veio em seguida. Ala’a Ozrail, palestino que administra uma ONG de resolução de conflitos no território palestino, disse que sentiu-se ofendido: “o filme, logo no início, traz imagens do Profeta, e isso para nós é ofensivo, é proibido”. E, questionador mas sem conseguir disfarçar a indignação, completou: “qual foi a razão para passar este filme apra nós? Por que apresentar o Islã desta maneira, ruim? Por que não mostrar as escolas na área do golfo? Por que esta região em específico?”. O jordaniano Msallam Nouri Msallam Abu Qaoud, que trabalha para o Governo de seu país, complementando, disse que, se não fosse muçulmano, teria uma péssima impressão de sua religião ao terminar de ver o filme e disse ter “orgulho de ser muçulmano, ser de uma religião pacífica e tolerante”.
Bashir Kasende: "I benefited from this movie"

A mediação do seminário entrou em cena para aplacar um pouco a situação e justificar a passagem do vídeo. A  orientadora Gulmina Bilal, paquistanesa e também muçulmana, explicou que o vídeo que melhor explica a situação foi gravado em Bangladesh – mas lembrou que situações análogas ocorrem em outros lugares e nossos olhos não podem estar fechados à essa realidade. Bashir Kasekende, diretor de relações internacionais do Partido Liberal Transparente de Uganda, aproveitou o momento para dizer que ele, pessoalmente, beneficiou-se muito da apresentação. “Ela mostra o impacto da educação na sociedade e o impacto da pobreza. E o que mais impactou foi ver a falta de interação entre as pessoas que saem de madrassas e as que saem de escolas. Este é um impacto na estrutura social: pessoas que deveriam ser amigas veem-se como inimigas”.

Ba, juiz em Senegal: não foi enviado a uma Madrassa porque sua
vó discordava do método de ensino em que crianças apanhavam
Outro africano sucedeu Kasekende em suas considerações. Cheikh Ba, que é juiz em Senegal, com pós-graduação em Bruxelas e em Antuérpia (Bélgica), iniciou dizendo que também é muçulmano e que a situação relatada no filme é distinta em outros países. Mas sustentou: “em Senegal, também há uma grande discussão sobre que tipo de ensino do Corão nós queremos. Minha avó, por exemplo, não permitiu que eu fosse enviado a uma Madrassa porque não concordava que pessoas poderiam me surrar lá, e por isso fui para uma escola”. Nuances à parte, a situação não parece tão diferente assim. Em Koran Kinder, há várias cenas em que se relata a violência praticada por professores contra alunos nas Madrassas – e os castigos físicos inclusive aparecem em uma cena para não restar dúvidas de que eles ocorrem.

Nigar Hacizade, cientista política turca formada em Nova Iorque, EUA, demonstrou constrangimento com a exibição do filme, e tratou de inserir um novo ingrediente, também presente no documentário mas pouco explorado: a contribuição do colonialismo ocidental para a situação de pobreza de Bangladesh. Com argumentos como o de que “também nos EUA há educação religiosa radical, mas o que impacta no caso de Bangladesh é a escala muito maior em que é praticada”, ela concluiu dizendo que o filme, de fato, é uma crítica – mas que nenhum muçulmano deve temer críticas como as apresentadas no filme.

Após as considerações de Hacizade, pedi a palavra aos moderadores. Não queria expressar minha opinião, ainda. Disse apenas que percebia um ambiente muito constrangedor na sala e que sugeria aos muçulmanos e muçulmanos-árabes presentes que falassem sobre o que pensavam do filme abertamente, tentando o máximo possível ater-se aos fatos, não à emoção. “Como brasileiro, país em que muçulmanos praticamente inexistem, ainda mais no extremo sul onde moro, recebemos as informações todas a partir de fontes não-muçulmanas”, disse. “Sugiro que vocês aproveitem esta oportunidade para expor exatamente como vocês a vêem para que, assim, possamos nós, não-muçulmanos, tentar compreender melhor o que vocês pensam – afinal, para poder resolver um conflito, nada mais importante do que conhecer a fundo os valores e as intenções de ambas as partes”, conclui, devolvendo a palavra à mesa.

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