sexta-feira, 18 de março de 2011

A crise de identidade holandesa na União Europeia

Tudo começou há exatos 60 anos: em Paris, França, Alemanha Ocidental, Itália e Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo, já uma espécie de "bloquinho" ainda antes de 1951) assinaram o Tratado que dava origem à Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA). Seis décadas depois, a União Europeia é composta por 27 países, mais de meio milhão de habitantes no total, e é muito mais do que uma aliança entre países com finalidades econômicas. Não raro, a finalidade política e geoestratégica da integração é mais importante para seus países membros, nem todos, por exemplo, integrantes da Zona do Euro (e alguns demonstrando claramente que não têm a menor intenção de integrá-la).

Na quarta-feira à noite, assisti na Universidade de Leiden à palestra de Jan Rood, que pesquisa a posição holandesa nas relações internacionais e, mais especificamente, dentro da União Europeia. A conclusão a que ele faz seu ouvinte chegar é simples: a Holanda, outrora a principal precursora da União Europeia com o Benelux e a CECA, agora tem dificuldades em conviver com a realidade de ser um pequeno país em um bloco com quase 30 integrantes. 

A potência econômica holandesa e seu desenvolvimento em geral são invejáveis: tem o 16º PIB do Mundo, robusto setor financeiro, dezenas de multinacionais de peso, é uma democracia bem desenvolvida e um país extremamente liberal, com taxas escandinavas de analfabetismo e mortalidade. Não obstante, é o seu tamanho aos olhos dos seus pares que importa. A União Europeia está fadada a ter na França e na Alemanha suas âncoras: se há entendimento entre esses dois países sobre o que deve ser feito, dificilmente não será feito. O paradoxo é que, quanto mais membros entram na UE, ainda mais importância França e Alemanha ganham, enquanto países como a Holanda vão se tornando apenas mais um entre 27, quiça 30 ou 32 em poucos anos. Para piorar, os custos da burocracia crescem em proporção maior do que o da própria expansão da UE e, na hora de pagar a conta, aí sim a Holanda é lembrada como país rico, desenvolvido e, last but definetely not least, importante.

"A Holanda pegou o trem na primeira estação em que partia e sentou na primeira classe. À medida que o trem foi andando, mais vagões foram sendo acoplados e, antes que os holandeses percebessem, estávamos sentados na segunda classe - e, se não cuidarmos, além de pagar por um bilhete mais caro do que o que pagamos para sentar na primeira classe, vamos estar logo logo na terceira classe", comparou Rood - aliás, o trem aqui é um meio de transporte tão importante na vida de todo cidadão que comparações com ele são constantes. "Nunca houve um debate sobre se era importante para a Holanda estar na União Europeia. Para nós, a UE sempre foi um fato e a necessidade de existir, indiscutível", disse Rood. Essa situação alterou-se na última década. "O grande ponto de inflexão foi a votação da Constituição Europeia em 2005, quando o povo holandês foi às urnas dizer não. A elite política holandesa não apenas entendeu o recado como também já estava mudando de pensamento", relatou Rood.

O período agora é de grande reflexão para a Holanda. Além da União Europeia, o mundo também está mudando, e a posição da Holanda está cada vez mais dependente de encontrar apoiadores em grande número às suas ideias e, de preferência, apoiadores que sejam poderosos. Esta análise está no seu artigo "Melhor ser um bom vizinho do que um amigo distante" (disponível somente em holandês), onde Rood fala sobre a participação da Holanda na recente cúpula do G-20 em Seul e nas ordinárias reuniões da UE, em que constantemente o país prefere calar-se a dizer verdadeiramente o que pensa.

Com uma burocracia cada vez maior, um constante aumento no número de países-membros e uma influência internacional impossível de desprezar, a União Europeia tem se transformado num gigante e atado as mãos de pequenos mas importantes países como a Holanda, que pagam a conta e não recebem a fatura. A crise de identidade holandesa é inevitável: fundadora da UE, não vai abandonar sua cria. Membro de cada vez menor relevância, tampouco consegue fazer algo para mudar a situação em uma organização cada vez mais plural e com membros com distintos interesses.

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