domingo, 6 de fevereiro de 2011

Educação centralizada: pena que tantos a defendam

A crescente e tendenciosa centralização de tudo no Brasil está fazendo mais uma vítima: a qualidade dos conhecimentos dos ingressantes nas universidades federais brasileiras - não - por enquanto, é o que parece -, a quantidade. O exemplo dado pelo texto que publico aqui de Percival Puggina, relaciona-se com o curso de Medicina: um professor de matemática do Instituto Tecnológico de Aeronáutica fez a prova do ENEM e deu-se muito mal em Biologia. Mesmo assim, devido aos acertos em outras áreas do conhecimento - alguns, aliás, de respostas a perguntas triviais como "o que significa um jogador parado do lado fora da quadra de vôlei com uma bola na mão?" - classificou-se para cursar Medicina na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre.

O ENEM e todas as trapalhadas federais que já o transformaram em um fiasco crônico e inconsertável, é um natimorto. A centralização de tudo o que diz respeito à Educação nas mãos de um Ministério está comprometida - só não vê quem defende a visão retrógrada de que o MEC deve ser tanto o fiscalizador como também o regulador e o executor final de todas as políticas de Educação no país (além de promotor, indutor, elaborador, disseminador, defensor, protagonista... e todas as centenas de demais palavrinhas mágicas que aparecem por aí e que, imaginam os que as escrevem, só por estarem ali, no papel, já iniciaram a fazer seu serviço grandioso à nação). Uma pena que o contingente de pessoas que defende esse tipo de centralização seja, ainda, tão grande. Em especial, lógico, nas esferas governamentais, judiciais e parlamentares.

Leia o texto de Percival Puggina (fonte: blog do Puggina) :



QUAL VACAS PARA TOURO
Percival Puggina
É muito provável que o leitor desconheça o fato relatado na edição de Zero Hora do dia 2 deste mês, em artigo com o título "Mamãe, passei em Medicina". O autor, professor de matemática e engenheiro pelo ITA foi protagonista da experiência que conta. Chama-se Daniel Lavouras e submeteu-se às provas do ENEM deste ano, sendo qualificado para ingresso no prestigiado e disputado curso de Medicina da Faculdade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre.

Até aí nada de mais. Afinal, supõe-se que um professor de matemática, engenheiro aeronáutico, seja uma pessoa com preparação escolar e conhecimentos bem superior à media dos concorrentes. Acontece que ele se confessa, no artigo, absolutamente ignorante nos principais conteúdos com relevo para um curso de Medicina. Transcrevo-o: "Nunca entendi a mitose e a meiose. Não sei a diferença entre eucariontes e procariontes, Darwin, Mendel e seus amigos não me são próximos. Tudo que sei de cromossomos e DNA é o que leio em jornais e revistas. (...) 'Chutei' com precisão? Não, ao contrário, errei praticamente todas as questões de Ciências Biológicas. Ah, em compensação eu tive o extremo mérito de entender que a foto de um jogador parado fora da quadra com uma bola de vôlei significa que ele vai sacar e também percebi a foto do Mr. Bean no quadro da Mona Lisa. É sim, eu acertei estas! (e para todos que ainda não conhecem a prova do Enem, fica o convite para que o façam, visitem o site do Inep).

O professor não vai cursar Medicina, claro. Sua experiência e o que escreveu bradam contra o absurdo de um exame vestibular nacional que não distingue alhos de bugalhos. E tampouco distingue o curso de Economia do de Artes Cênicas, ou o curso de Publicidade do de Engenharia de Minas. E assim, alguém que erra quase todas as questões de Ciências Biológicas habilita-se a cursar uma das melhores faculdades de Medicina do país.

O ENEM não é apenas um recordista em trapalhadas de grande porte. Ele é um mal em si mesmo. E é, também, sintoma específico, no campo da Educação, de dois males genéricos que afetam o Brasil: o centralismo e a ruptura com os fundamentos do sistema federativo. Estamos sendo cozinhados como sapos, pelo gradual aquecimento da água da panela, num modelo que privilegia, em tudo e para tudo, aquilo que é nacional e federal. Adotamos, cada vez mais, sistemas centralizados. Brasília deixou de ser tão-somente a capital do país. Ela se tornou a única cabeça pensante, o caixa único, a sede dos sistemas únicos e o ponto de convergência, pela via fiscal, de 23% do nosso PIB. Tamanha concentração de poder e dinheiro transformou a antiga cidade dos candangos no município brasileiro com mais alto Índice de Desenvolvimento Humano. E para ali convergem prerrogativas que aviltam a Federação, transformando estados e municípios, ora em pedintes, ora em agraciados com as migalhas que caem de sua mesa.

Pois o ENEM é filho desse sistema. Nasceu portador do defeito genético que herdou do papai, o enganoso federalismo brasileiro, no qual a União, cada vez mais, vai dispondo sobre tudo e sobre todos, absorvendo as autonomias ainda residuais na nossa vida social. Um exame de ingresso nos cursos de terceiro grau, com extensão nacional, é um devaneio autoritário, uma coisa de porte descomunal, monstruosa no aspecto e, por óbvio, descomedido na dimensão de seus erros.

É desanimadora, contudo, a bovina docilidade com que instituições de ensino superior, de tanta importância na formação da inteligência nacional, se entregam a esse sistema qual vacas para touro. Cedem autonomia e aceitam sua própria degradação. Em troca de um prato de lentilhas. Lentilhas federais, claro.

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* Percival Puggina (66) é titular do blog www.puggina.org, articulista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões. 

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