quarta-feira, 16 de abril de 2014

Uma Rússia cada vez maior?

O avanço da Rússia sobre a Ucrânia, país que há pouco mais de 20 anos fazia parte da União Soviética, demonstra que o projeto de “Grande Rússia” do presidente Vladimir Putin já não está mais ficando apenas nos seus pronunciamentos. “Putin nunca olhou para a Ucrânia como se fôssemos um país independente, mas como um território que deveria pertencer à Rússia”, opina a jornalista ucraniana Yulia Bodnar, mestranda em Jornalismo pela Universidade de Amsterdã (Holanda). Ela esteve na praça Maidán, em Kiev, no início deste ano, protestando contra o ex-presidente Víktor Yanukovitch, hoje deposto. “O pior é que, se a Rússia anexou tão facilmente a Crimeia, sem nenhuma guerra, nada, e sem resposta à altura da comunidade internacional, Putin pode fazer o mesmo com a parte oriental da Ucrânia. Espero sinceramente que ele não cometa este erro”, completa.

O mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor da Faculdade América Latina de Caxias do Sul, Cezar Roedel, é de opinião semelhante. “É muito provável que Putin anexe mais regiões da Ucrânia, pois a resposta que tivemos com a anexação da Crimeia não foi uma resposta muito articulada”, acredita. “Primeiro, porque o Ocidente não esperava que isso fosse de fato ocorrer. Se ocorrer um novo avanço russo, a tendência é que a resposta ainda seja desarticulada, pois a política externa norte-americana mostra uma série de crises, desde o caso da mediação da Síria.”

O passado do presidente russo também pesa muito neste enredo. “Putin é ex-agente da KGB. Ele pensa dez anos à frente. Imagino que ele já viesse articulando desde os anos 1990 esse projeto de anexação. Essa crise foi apenas o momento mais adequado”, afirma Roedel. “Muito dos próximos eventos dependerão da decisão da Ucrânia em aderir ou não à Otan. Se o fizer, acho provável que Putin tente novas investidas contra o país vizinho.” Além disso, Roedel acredita que a questão ideológica também influi. A derrubada da estátua do líder da revolução bolchevique e fundador da URSS,Vladimir Lenin, na cidade de Zhitomir, no noroeste da Ucrânia, é exemplo disso. “Analisando vídeos, imagens e fotos dos protestos, grande parte daquelas pessoas eram jovens. Não querem ficar amarrados a uma certa tradição e dependência da Rússia, mas, ao contrário, querem libertar-se dela.”

Encarar a dura realidade de que a Rússia está, de fato, aumentando seu território e avançando sobre seus vizinhos não é tarefa tão simples para os ucranianos. “Eu ainda não quero acreditar que esta anexação tenha acontecido, ela é tão contra a nossa constituição”, desabafa Bodnar. “Eu tenho um apego sentimental à Crimeia. O meu mapa mental da Ucrânia vai continuar sempre com a Crimeia fazendo parte do meu país. Foi lá que fiz a primeira viagem de verão com meus pais para a praia. É uma região diferente de onde venho na Ucrânia (Chernivtsi); fala-se russo na Crimeia, mas eu tive educação bilíngue, multicultural, e nisso não vejo problema nenhum. Não quero acreditar que a Crimeia não nos queira, isso está além da minha compreensão.”
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Publicado na Revista Voto de abril de 2014

Fonte: http://www.revistavotodigital.com.br/web/pub/voto/ (p. 64)

sexta-feira, 4 de abril de 2014

“Acabaram com a inteligência no Brasil” - Entrevista com Olavo de Carvalho



A entrevista exclusiva concedida pelo filósofo e jornalista Olavo de Carvalho foi destaque de capa da Revista Voto deste mês.

"Todo mundo no Brasil é idiota até prova em contrário", declarou; e advertiu: "sem restaurar a cultura no Brasil, não dá para fazer política".

Foi um prazer e uma grande honra a oportunidade de entrevistá-lo. Leia a íntegra abaixo!

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Olavo de Carvalho: “Acabaram com a inteligência no Brasil”

Entrevistado por Marcel van Hattem

Apesar de assumir rótulos tidos como repulsivos pelo que chama de "establishment esquerdista na mídia, na cultura e na política brasileiras", Olavo de Carvalho é um fenômeno virtual no país. Residindo há quase uma década nos Estados Unidos, o jornalista e filósofo tem um público fidelíssimo no Brasil - e grande parte dele foi conquistado nos últimos anos, pela internet. Somente no Facebook ele possui mais de 50 mil seguidores em seu perfil. Sua fama na internet intensificou-se a partir de 2007, com o seu Seminário Online de Filosofia. “Eu achava que teríamos uns 100 alunos. Hoje temos mais de 3 mil de todo o Brasil e do exterior também”.
Com vasta obra publicada, seu recente livro “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, organizado por Felipe Moura Brasil e publicado pela Record, continua aparecendo nas listas dos livros mais vendidos. Em entrevista exclusiva à Revista Voto concedida da sua casa na Virgínia, Olavo de Carvalho fala sobre política, cultura e por que não quer voltar ao Brasil. Nunca mais.

O senhor é hoje considerado uma das mais importantes vozes do conservadorismo no Brasil. O senhor tem percebido também um aumento no número de núcleos conservadores no País?
Sim, formidavelmente. Durante muito tempo fiquei totalmente sozinho na mídia. Era um negócio tão esquisito que as pessoas nem entendiam o que eu estava falando. Aos poucos, começaram a ler mais, a se interessar. Hoje é muita gente. Pelas pesquisas feitas pela Folha (de S. Paulo), vê-se que o público brasileiro é acentuadamente conservador. Ele só não tem canais, não tem liderança, não tem porta-voz. Agora já tem alguns - não propriamente na política, mas no jornalismo e na internet, na cultura.

E por que na sua opinião não há conservadores na política brasileira?
Isso começa já no tempo dos militares. Os militares, ao invés de incentivar alguma política liberal ou conservadora, simplesmente mataram a política. Tinham uma ideia tecnocrática, remotamente inspirada no positivismo de Augusto Comte, que dizia que os problemas políticos deveriam ser resolvidos pelo método científico. Mais ainda: todas as organizações da sociedade civil que participaram do movimento de 64 foram definhando e o governo as deixou às traças. Portanto, desapareceram não só a política como também as lideranças da sociedade civil e abriu-se espaço para as lideranças comunistas ocuparem. A guerrilha foi eliminada, mas a esquerda pacífica, entre aspas, ocupou todos os espaços. Podemos dizer sem sombra de dúvidas que a esquerda dominou completamente a mídia e as universidades já durante a época da ditadura, sem que o governo nada fizesse para impedir isso, nem mesmo no embate cultural.
*A hegemonia esquerdista na mídia, a ocultação de fatos inconvenientes à esquerda já vem desde o tempo da ditadura. Em 1965 saiu o livro do Edmar Morel, o “Golpe Começou em Washington”. Se espalhava aí a tese de que o golpe havia sido tramado e financiado pelo governo americano e todo mundo acreditou nisso. Isso é até hoje ensinado nas universidades e é repetido na mídia. Qual é a origem disso? É um mito criado pela KGB em 1964. A tese oficial, da esquerda, é a seguinte: em 1964 tínhamos um governo democrático e não havia perigo comunista algum. Foi tudo um delírio, um pretexto dos golpistas para derrubar um governo legítimo. Mas foi o contrário, tudo comprovado por documentos soviéticos: a penetração da KGB no Brasil era avassaladora. A KGB estava controlando a situação. Havia um perigo comunista manifesto, havia uma presença comunista.

A Petrobras era a 12ª empresa no mundo e hoje é a 120ª e o grande período de decadência tem sido nesses últimos anos. A que o senhor computa isso?
Quando um político revolucionário, comprometido com o movimento revolucionário continental como o Foro de São Paulo, assume o governo do País por vias democráticas, ele tem que atender simultaneamente a dois tipos de compromisso: ele sobe lá com um programa que ele precisa cumprir e, por baixo disso, ele tem uma outra série de compromissos que é com o próprio movimento revolucionário. Esses compromissos com o movimento são muito mais fortes do que os outros. Ele vive em um regime de dupla lealdade. Quando o Lula assume, ele tem um programa econômico, mas por baixo disso tem o plano de implantar o socialismo. Para implantar o socialismo há que se ter uma política dúbia, que por um lado mantém a economia mais ou menos funcionando, para não criar hostilidade popular, mas que por baixo esteja solapando tudo. E criando crise social. Ninguém vai entender o Lula, os governos do PT, se os encarar de uma maneira linear. Raciocinar de maneira dialética, pensar em dois planos, isso é da tradição do movimento revolucionário.

Nesse sentido, o Brasil pode estar seguindo o mesmo rumo da Venezuela?
Pior. Pior porque na Venezuela há uma imensa oposição organizada, ativa, e no Brasil não há nada. No Brasil, os próprios militares desmantelaram a direita brasileira.

E os protestos de junho, não podem ser comparados ao que acontece hoje na Venezuela?
Não, não podem. Pelo seguinte: há uma insatisfação enorme por causa dos impostos, mau serviço público, falta de segurança - o Brasil tem 70 mil homicídios por ano, uma coisa absurda! Os movimentos de junho foram criados pelo próprio governo, pelo pessoal do Foro de São Paulo para acirrar as contradições e encerrar a fase de transição, que foi o governo Lula, e passar para a implantação do socialismo. Esta era a ideia. Botaram a garotada na rua, treinaram uma parte para gritar, outra para fazer depredação. No entanto, uma parte da população saiu voluntariamente à rua, ocupando mais espaço do que a militância treinada. É um acontecimento inédito, nunca houve uma manifestação espontânea desse tamanho em país algum. Não tinha liderança, não tinha organização, não tinha coisa nenhuma. Só o pessoal da esquerda que tinha organização.

*Essas manifestações espontâneas não foram positivas para o Brasil?
Claro que foram positivas mas foi uma ação completamente difusa, desordenada, não aproveitável politicamente. Isso só nos informa de uma coisa que nós já sabíamos: que o povo estava “por aqui” com o governo. Quem é que não sabe disso? Mas esse mesmo povo não tem canais de atuação. Todas as organizações da sociedade civil, escolas, igrejas, sindicatos, clubes, tudo está na mão da esquerda. Ou seja, a sociedade civil está contra o governo, mas os órgãos que a “representam” estão a favor do governo.

*Como o senhor explica a alta popularidade da Dilma e de Lula nas pesquisas?
É muito simples: você tem que votar entre os candidatos que existem. Mostre-me um candidato que represente a nação brasileira, a nação conservadora, cristã, etc. Não tem nenhum! Então tem-se que escolher entre o que se tem. Veja o pessoal do PSDB: são sempre pessoas inócuas. José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, são pessoas que não dizem nada. Nas eleições temos pessoas de esquerda diluída e outras de esquerda autêntica, como a Dilma. Em um campeonato de esquerdismo ganha o mais esquerdista, evidentemente. O próprio Lula observou que nas últimas eleições só havia candidatos de esquerda. Então, forçados a escolher entre candidatos de esquerda, o eleitor escolherá o mais popular, o mais notório.

Os rumores de que Lula poderia voltar a se candidatar à presidência da república têm fundamento?
É bem possível. Acho que ele quer, quer muito. Ele é isso. Toda a vida dele foi feita para ele virar o que ele virou. Ele não é capaz de fazer outra coisa. O que o Lula vai fazer? Escrever suas memórias? Vai abrir uma empresa?

Seu livro, organizado por Felipe Moura Brasil é intitulado “O Mínimo que Você Precisa Saber Para Não Ser um Idiota”. Quem é o idiota?
Em princípio, todo mundo no Brasil é idiota até prova em contrário. Por quê? Este é um país que odeia o conhecimento. Há mais de dez anos nossos alunos da escola secundária tiram sistematicamente os últimos lugares em todos os testes internacionais, abaixo de estudantes do Paraguai, da Serra Leoa, de Uganda. Dizer que o brasileiro é o povo mais burro da face da terra não é portanto exagero nenhum, é uma questão de estatística. As pesquisas mostram que entre 35% e 50% dos nossos universitários são analfabetos funcionais. Ou seja: é esse pessoal que está sendo diplomado. Os nossos professores universitários, os nossos advogados, nossos sociólogos, filósofos, todos analfabetos funcionais! Então é claro que é um bando de idiota. Não estou xingando, é uma constatação quantitativa. Isso quer dizer que, com o desaparecimento da alta cultura no Brasil para instalar a máquina de propaganda do PT, acabaram com a inteligência do Brasil.

Muitas pessoas que lerão esta entrevista acharão que o senhor é muito radical e muito pessimista...
Então, está bem! Na primeira vez que foi noticiado que nossos estudantes do secundário tinham tirado último lugar nos testes internacionais, o ministro da educação à época disse: “poderia ter sido pior”. Como assim, tem algum lugar abaixo do último? Isso é que é um otimista no Brasil! Abaixo do último não tem pra onde cair. Quando você chega a 70 mil homicídios por ano o que você espera que aconteça? Quem pode ser otimista diante de uma coisa dessas? Estou discutindo uma questão objetiva, fatos e números. Aí o sujeito vai dizer, “você é muito radical”. Quer dizer que se eu fosse menos radical o número de homicídios diminuiria? Isso é puro raciocínio mágico.

Então qual é na sua opinião a saída para o Brasil?
A única saída possível é o pessoal liberal e conservador começar do começo: tentar começar a organizar a sociedade civil desde as suas bases mais modestas e locais. Experimentem tomar um sindicato, uma redação de jornal, uma organização religiosa. Mas eles não querem. Os comunistas começaram no pequeno, tomando as organizações da sociedade civil há mais de 60 anos, e foram crescendo. Só que os liberais e conservadores não querem fazer isso, querem chegar por mágica, querem dominar o país sem terem dominado a sociedade civil. Isso nunca vai dar certo.

O senhor está há nove nos EUA e não retornou para o Brasil...
Nenhuma vez e não volto mais aí.

O que faria o senhor voltar?
Nada. Absolutamente nada. Eu não pisarei mais nesse país. Já me esforcei muito por este país e continuo me esforçando. Só que ficar aí dentro é ficar impotente. Daqui de fora dá para fazer alguma coisa, daí não dá para fazer nada. *Não quero ficar deprimido em ver o Brasil. Conheci a cidade de São Paulo nos anos 1950, 1960. Um pouco bagunçada, trânsito terrível, mas era uma cidade bonita. Na época em que eu saí do Brasil, todos os prédios estavam grafitados, via-se mendigo por toda a parte, uma coisa horrível. Pegue uma foto de uma rua do centro de SP nos anos 50 e outra agora. O sujeito fosse ele pobre ou rico, nos anos 1950 estava andando de terno, gravata e até chapéu. Todo mundo vestido decentemente. Agora, não! Estão os caras de bermuda, barriga de fora e chinelo havaiana. Todo mundo! É uma deterioração estética, visual, absolutamente insuportável. A cabeça de uma pessoa que é criada no meio da feiúra, da desordem e da bagunça nunca vai funcionar. A feiúra no Brasil já virou valor. Há a feiúra estética, na indumentária, na música. A feiúra na esculhambação e no esculacho geral. Qual o conceito de beleza do brasileiro? É uma bunda grande e lisinha. Na minha opinião, a personalidade se vê pelo rosto. Você concebe um sujeito apaixonado dizer para a sua amada: “amarei a sua bunda até o fim dos meus dias”? Você vê até que ponto a coisa foi rebaixada?

Mas o que move o senhor a continuar o trabalho relacionado ao Brasil, apesar de estar nos EUA e não querer voltar ao país?
É a minha vida, tudo o que estou fazendo é pelo Brasil. Eu só não quero ser contaminado pela loucura, mas preciso fazer algo pela reabilitação da cultura brasileira. Os escritos de alunos meus que começaram a aparecer recentemente - do Felipe Moura Brasil, do Rafael Falcon, do Gustavo Nogy, do Flavio Morgenstern, e vários outros: esse pessoal está em um nível infinitamente superior ao da média dos universitários e jornalistas brasileiros. Sem alta cultura não dá para fazer nada. Não dá para fazer política. Dizia o poeta austríaco Hugo von Hofmannsthal: “nada está na política de um país que não esteja primeiro na sua literatura”. Sem restauração da alta cultura é bobagem pensar em política.
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Nota do entrevistador: Trechos iniciados por asterico (*) e até o final dos respectivos parágrafos não constam da versão impressa por limitação de espaço. Aproveitei o post nesta página do Facebook para mantê-los.

Link para a matéria original, publicada na revista Voto de abril de 2014 :http://www.revistavotodigital.com.br/web/pub/voto/(páginas 30 a 34)

sábado, 22 de março de 2014

O gigante sonhador que acordou na ditadura

O gigante foi dormir na democracia. Sonhou bem e sonhou muito. Sonhou radicalmente com a igualdade. Não “achava-se”, afinal, era um gigante: sabia-se tolerante. Sabia-se sem preconceitos: “todos são iguais”. Todos deveriam ser iguais. Seu sonho foi ficando tão radicalmente perfeito, que, mesmo que houvesse leis e costumes no caminho, tudo se esfacelava para dar lugar ao ideal de igualdade absoluta que vislumbrava.

Preguiçosos foram sendo igualados aos esforçados; bandidos e criminosos, igualados às pessoas honestas e de bem. Prostitutas a donas de casa, vagabundos a virtuosos. Até políticos corruptos passaram a ser igualados aos poucos políticos dignos que restavam — claro, desde que os corruptos tivessem sido apenas “mensaleiros” e roubado pela Causa Maior. Houve inclusive um que não foi nem investigado: o Grande Líder da Causa Maior precisou apenas afirmar que, da corrupção que todos viram, nada sabia — e assim se safou.

Aproximavam-se as primeiras horas da manhã. O doce sonho do gigante foi ficando amargo. Preguiçosos exigiam mais dinheiro para não trabalhar. Bandidos exigiam mais direitos (humanos) para atuar no crime sem maiores dificuldades. E os políticos extorquiam mais impostos e acumulavam mais poder para continuar governando. Mais e mais poder. 

Não demorou e os corruptos pela Causa Maior começaram a ser declarados inocentes, e o Grande Líder passava a afirmar que a corrupção nem havia existido. O sonho foi virando pesadelo sem que o gigante compreendesse bem a transição — mas se tivesse estudado história ao invés de alimentar perigosas utopias, ele poderia ter previsto a catástrofe. O sonho virou pesadelo, do tipo cuja lembrança mais marcante é o gosto ruim que fica na boca quando acordamos. O gigante dormiu na democracia. Sonhou igualdade radical, até mesmo entre o que não pode ser igualado. Acordou em uma ditadura. 
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Publicado no Jornal de Comércio impresso de sexta-feira, 21 de março de 2014 e online: http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=157224

sexta-feira, 21 de março de 2014

"O pretenso socialismo trouxe uma ditadura ao país"

Ontem assisti em Porto Alegre no TCE, junto com amigos, à palestra da Juíza venezuelana aposentada Blanca Mármol de León. Ela foi Ministra da Suprema Corte do país.
Foto: Fábio Ostermann


Suas palavras não são nada menos do que aterrorizadoras. É impressionante que, mesmo sabendo os horrores que o socialismo e o comunismo causaram mundo afora, tem gente que continua achando que pode ignorar a história. O resultado, na Venezuela, está aí: vive-se lá hoje uma ditadura em que falta comida, papel higiênico e, sobretudo, liberdade para a população. E pensar que o governo do PT ainda apoia essa nova ditadura latinoamericana... É de nos preocuparmos, e muito!

Veja algumas das frases que tuitei durante a palestra da magistrada (meu twitter é @marcelvanhattem):

"Em um país onde os juízes têm medo, os cidadãos não conseguem dormir tranquilos. Essa é a situação da Venezuela: os juízes têm medo".

"Ninguém nem percebeu quando o Controlador-Geral da República da Venezuela morreu. Ele não fazia nada, não temos acesso às contas públicas".

"Pagar médicos através do governo cubano, que fica com quase todo o salário é o mesmo que alugar pessoas".

"Houve uma silenciosa invasão de médicos cubanos. Hoje a situação é tal que médicos venezuelanos recém-formados não conseguem emprego".

"Os corruptos [chavistas] da Venezuela compram propriedades e gastam o dinheiro roubado em Miami - não em Cuba".

"Raúl Castro diz que Nicolás Maduro é o homem de Havana na Venezuela".

"Que a situação da venezuelana sirva como alerta a vocês, pois o pretenso socialismo que seria implantado trouxe uma ditadura ao país".

quinta-feira, 20 de março de 2014

Agradecimento a Tuma Jr.




"Eu não sou de correr. Quem é de correr não escreve o que eu escrevi", disse Tuma Jr. em Porto Alegre. Tive a oportunidade de agradecer pessoalmente a ele ontem, na Livraria Cultura, pelo serviço que prestou ao Brasil ao escrever e publicar o livro Assassinato de Reputações. Que este assassínio seja combatido e cesse, já!

quinta-feira, 6 de março de 2014

Fim do século XXI para o socialismo bolivariano?

Marcel van Hattem*

Colaborou: Fabio Ostermann

Inflação galopante (oficialmente, 56% em 2013), criminalidade nas alturas (25 mil homicídios ao ano) e desabastecimento por todo o lado. O proclamado “socialismo do século XXI” de Hugo Chávez, quinze anos depois de implantado na Venezuela, sofre sua mais dura contestação sob a presidência de seu sucessor, Nicolás Maduro. Milhões têm, recentemente, lotado as ruas de Caracas. Jornalistas internacionais são descredenciados pelo governo na tentativa vã de bloquear a divulgação dos protestos. Segundo a ONG Foro Penal Venezuelano, mais de 400 pessoas já foram presas sem acusação formal pelas forças de segurança. Para acrescentar insulto à injúria, dentre as nove mortes contabilizadas até o fechamento desta edição está a de uma miss Venezuela, a jovem Genesis Carmona, de 22 anos, atingida por uma bala na cabeça.

“As pessoas foram às ruas para buscar uma saída para essa situação de crise grave em todos os sentidos”, disse Gabriel Salas, 28, coordenador executivo da rede nacional de Estudantes Pela Liberdade na Venezuela. “As manifestações foram motivadas devido à escassez material que se vive e à violência. A visão preponderante hoje é de que, ou o governo muda sua postura perante a sociedade, ou a sociedade muda o governo”. E por que não pela via eleitoral? “As fraudes são muitas e os tribunais eleitorais são dominados pelos chavistas”, denuncia Salas. “Além disso, não existe tampouco a possibilidade de a oposição derrubar o governo pela via armada, pois além de aparelhar ideologicamente o exército, os bolivarianos têm um grupo paramilitar, a Guarda Nacional Bolivariana”.

Quem apoia

O “bolivarianismo”, no entanto, é visto por muitos como um modelo a ser seguido. Os discursos “anti-imperialistas” que partem da Venezuela têm admiradores ao redor do mundo - e, no Brasil, a atual presidente Dilma e o ex-presidente Lula fazem questão de explicitar o apreço que têm pelos líderes venezuelanos. O próprio PT emitiu nota em apoio a Maduro no auge desta última crise. “É, de fato, um modelo para a esquerda, dentro de um contexto estratégico geral. Mas a minha análise é que se esgotaram as possibilidades de gestão política e administrativa deste modelo, principalmente por causa da questão econômica”, opina o cientista político Paulo Moura coordenador do curso de Ciências Sociais da ULBRA.

Segundo Moura, o Brasil pode tomar o mesmo rumo: “a Venezuela e Argentina são as pontas-de-lança neste processo, e acredito que suas situações não tenham mais volta. Já o Brasil está hoje ainda em uma fase intermediária, mas se o governo Dilma não abrir mão de suas convicções - do que não dá sinais - ou não for substituído nas urnas, seguiremos o mesmo caminho”. O professor acredita, porém, que o modelo está se esgotando: “assim como o desgaste da esquerda levou a uma onda de governos neoliberais nos anos 80 e 90 e a esquerda ascendeu ao poder, tudo indica que um ciclo está se fechando”. Se esta previsão se confirmar, o século XXI terminará cedo para o socialismo bolivariano.

*Cientista político, jornalista e consultor para relações internacionais

Fonte: http://www.revistavotodigital.com.br/web/pub/voto/ (pág. 50).

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Brasil, um pobre de um país para a sua juventude

Os protestos de rua de junho de 2013 ainda ecoam, neste novo ano, nas mentes dos brasileiros. Descontada a minoria de bagunceiros que, infelizmente, sempre aparece, as grandes massas de pessoas que protestaram pacificamente foram às ruas pela primeira vez em suas vidas. Grande parte dos manifestantes foi de jovens exibindo cartazes e expressando suas insatisfações, nas ruas e no Facebook, com o descaso das autoridades em relação ao dinheiro público - incluindo aí tanto o dinheiro roubado como o mal aplicado.

Foram às ruas jovens que, hoje, têm cerca de 20 anos de idade mas que, já aos 11, ouviram falar no escândalo do Mensalão pela primeira vez. Jovens que viram somente agora, quase metade de suas vidas vividas até aqui depois, que, ainda que um tanto tarde, a falha Justiça brasileira finalmente chegou aos mensaleiros. Apesar da boa notícia, a justiça chegou com direito a inúmeras regalias, tanto as previstas em lei - como o cumprimento de parte das penas fora da prisão - quanto as regalias frutos do “jeitinho” - como o furo dado na fila aos familiares e amigos dos políticos presos na Papuda, em Brasília.

Jovens de cerca de 20 anos que viram o Brasil ser escolhido o país da Copa e construir estádios faraônicos enquanto falta estrutura e boa remuneração para os professores em suas escolas; enquanto espera-se meses nas filas de atendimento do SUS; enquanto eles próprios, jovens, são assaltados não apenas nas saídas das festas à noite mas, também, ameaçados por bandidos nas ruas em plena luz do dia. O Brasil “país sem pobreza” vendido pelos bilhões gastos em publicidade pelo Governo Federal e suas estatais é para esses jovens, ironicamente, um país que lhes dá poucas possibilidades de produzir riquezas: educação deficiente, impostos escorchantes, corrupção, burocracia avassaladora, leis atrasadas e muita insegurança. Apesar de suas muitas riquezas, o Brasil vai se tornando um pobre de um país para a sua juventude. 

As eleições deste ano poderão ser um ponto de inflexão importante. A classe política brasileira já está se preocupando em encontrar novos discursos para dirigir-se a este novo eleitorado. No entanto, sem reformar profundamente nossas instituições, reduzindo o tamanho do Estado onde ele é desnecessário e dando mais segurança e liberdade ao indivíduo, infelizmente é improvável que novos discursos gerem também novas práticas políticas. E, enquanto novas práticas políticas não são adotadas, o novo momento político nacional que se iniciou para muitos jovens em junho do ano passado permanecerá em estado latente até eclodirem novas manifestações.
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Publicado na Folha Patrulhense de quinta-feira, 16 de janeiro de 2013.